domingo, 3 de abril de 2011

Como Van Gogh...


De frente para o espelho. Gordo, careca e frustrado.
Seria um famoso pintor?

Durante anos estudou artes numa faculdade reconhecida, aprendeu diferentes idiomas e conheceu toda influência, que de fato era necessária.

Hoje vende carros usados, numa concessionária sem nome.Acorda todo o dia às 5, mal consegue abrir os olhos e já tem roupa para passar e já tem criança para cuidar...

De frente para o espelho, gordo, careca e frustrado, sua mulher deitada na cama, já com sinais de idade, aquela menina de cabelos longos e de riso largo, agora uma mulher amarga e infeliz, nota parte da barriga que pula. Sussurra:
- Poderia correr, ao menos...

Um silêncio no quarto. Um silêncio. Sem palavras.
Naquele minuto em que a gravata sufoca o resto de dignidade, pensa no que seria o fruto da sua vida vazia. Filhos barulhentos? Mulher insatisfeita? Pneus furados? E o silêncio continua.


Um quadro ficou jogado, entre poeira de quartinho escuro e baratas elétricas. Um quadro que um dia era um sonho, agora o único vestígio de humanidade dentro de uma família.

Chegou no trabalho, pegou um papel, fez um rabisco, pegou uma arma e pintou de sangue a última tela de sua vida. Morreu.

sexta-feira, 18 de março de 2011

tem pô favô.



Sou eu o seu verbo o seu adjetivo, sou o que você modifica, tudo que no final, você transforma em cinzas, pó. Afinal eu posso, agora ou amanhã, quem sabe em breve, bem cedo,imediatamente ou jamais, dizer que você passou, ou que eu passei, que sou dona sua ou que você é dono meu, meu ou nosso? Quem sabe da geração ou quem sabe de ninguém. E desta forma confusa, conflitante, tempofavô fique, não vá ou pode ir, corre logo, bem devagar,viu?


E às vezes, na tarde,na noite ou na manhã, de repente, de vez em quando, de quando em quando, a qualquer momento, eu possa te sentir como areia pelos dedos, em minha retina em minha epiderme.


Não seja cruel comigo, ok? Seja bonzinho.

Tem pofavô.

terça-feira, 1 de março de 2011

homme.


Custou-me tanto:
Com tempo, com pranto.
Nada me pediu.
Mas é meu, meu e só meu.

Sem heroísmo de romance,
Com a palidez de inverno.
Na sua força bruta sútil.
Eu gosto assim, eu gosto sim.

No tom e desafinado,
Na lama jogado,
Falante ou acuado,
Mas eu o amo, amo.

O meu homem sempre vou amar.
Talvez nunca saiba, talvez até duvide,
Não me importo.
Em seus braços, sou só.

E do que adianda adeus?
Levantar e arrumar bolsa, roupa e maquiagem
Eu volto, volto com o orgulho na coleira
Volto correndo, volto de joelhos e volto.

Para qualquer coisa que seja,
Homem meu, serei sempre sua mulher.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Nossa paixão era inventar um novo tempo.

É complicado não pensar na vida como uma grande coincidência, mesmo para os mais cegos ímpios.
Eu gosto de pensar que pessoas, coisas, lugares e até mesmo o tempo é que desenvolvem o papel de me estremar. Nesta perspectiva, eu consigo entender porque dentro de uma livraria com mais de 3.000 livros, eu consegui escolher o livro de Daniel Souza e de Gilmar Chaves.

A capa azul e salmão, as páginas pálidas, amareladas de velhas, algumas até rasgadas e o preço barganhado pela senhora minha mãe, não correspondem, de fato, as 191 páginas de emoção que o livro traz. Eu devorei o livro em um dia, e olha que tem muito tempo que minha cabeça não largava Gilmar Mendes, Hely Lopes, Cavalieri Filho, Rogério Greco e companhia, para uma literatura sem artigos e princípios legais. O livro começa com uma citação de um homem que eu passei a ter uma profunda admiração, Oscar Niemeyer, isso talvez tenha chamado minha atenção para a compra do livro, após esta maravilhosa apresentação, encontramos, como a própria capa do livro diz, 34 depoimentos de personalidades sobre a resistência à ditadura militar. Tá, eu sei o que você está pensando, DITADURA MILITAR? FILME DA GLOBO, DOCUMENTÁRIO DA GLOBO, NOVELA DA GLOBO, MINISSÉRIE DA GLOBO... Livros, mídia, propaganda, revistas e matérias no Discovery Channel, resumindo o seu pensamento, é claro. Mas sinceramente, eu posso dizer que não, não pensei em nada disso quando eu li o livro.

O segundo depoimento foi talvez o mais marcante para mim, Adilio Athos, que a nível de conhecimento (google), não passa de um "personagem" deste livro, é a primeira referência que aparece. Logo em seguida, o que me deixou confusa, aparece este mesmo nome como uma pessoa responsável de um cenário em uma peça de teatro. Como o nome é bem incomum, acredito que seja a mesma pessoa, ou espero que seja. Adilio Athos é talvez ainda um ponto de interrogação para mim, porque em seu depoimento ele não narrou quem de fato ele era, ou sua verdadeira história e caminhada, narrou de forma linda e em poesia sua trajetória até o fim de sua tortura. De forma brilhante e com rimas ricas, a passagem se torna emocionante em cada estrofe, não pela forma apenas, mas por trocadilhos, irônias e tudo muito bem elaborado. E eu não sei como Adilio Athos era fisicamente, mas de fato a minha imaginação construiu um homem alto, branco, magro, com um nariz grande, olhos claros e um ar de alegria eterna.

O livro conta com algumas figurinhas douradas da história brasileira como Luiz Carlos Prestes Filho, Regina Sodré e Jean Marc Von Der Weid, Pedro Viegas, Fernando Gabeira...

Além da crítica massante a Lei da Anistia de 79, os depoimentos tornam não somente o sofrimento destas pessoas de forma clara, como o vazio que ficou a vida e o pensamento com a geração perdida.

Não quero fazer apologia à educação, à luta por ideais ou talvez dar uma nova crença a nossa pátria, a história ensina que nacionalismo bom, é nacionalismo modesto. O que eu quero é divulgar a obra desta dupla dinâmica, que merece um novo olhar sobre este tema tão comum entre as provas de vestibular e tão incomum na mesa de jantar.

ps: Billie Holiday teve que me desculpar, tive que escolher entre sua coletânea e o livro.

"A casta vestida de verde dizia que eu estava livre, com tutela vigiada.
Pra não me perderem de vista, virei carta marcada.
Anistia, para quem não sabe, é pecado perdoado.
Pequei por ser contra um regime cruel e malvado.
Essa coisa chamada de anistia foi feita em prol da direita e dos senhores da vilania.
Onde estão os meus direitos, que até hoje procuro?
Quanto mais eu peço luz, mais fico no escuro..."

Adilio Athos

sábado, 6 de novembro de 2010

Correnteza.

Uma madeira arranhada, passo por cima, entro no mármore. Despeço-me das pesadas vestimentas,uma por uma, lentamente... Sons ao jorrarem a liberdade de se estar escalvado, cascata sonora. Na pele, um frio, um calor e um tanto faz. Não vejo mais com a clareza e pureza, mesmo sendo tão pura e clara o que passa pelos olhos, a visão agora é imperfeita, é baça. Aos poucos uma essência confunde meu olfato. E agora, com todos os sentidos aguçados, desordenados e desanuviados, ali esqueço do mundo, esqueço da vida que passa e dos segundos que levam até a minha próxima respiração, afogada pela própria palma da minha mão. Os poros se abrem aos poucos, as pontas dos dedos começam a murchar e toda calmaria vai embora com o fim da correnteza.
Como o sol que nasce, prontifica e morre todo dia, o banho termina e a vida segue, sempre segue.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Rótulo.

-Do latim rotulus, -i, pequena roda.
1.dístico, etiqueta, letreiro.
2.Dístico na lombada dos livros.
3.Ralo ou pequena grade em portas, janelas, etc.
4.Pergaminho em que se escrevia.
5.Designação ou característica definidora, geralmente de carácter! redutor, atribuída a algo ou alguém.

Somos rotulados? Nos rotulamos? Queremos nos rotular?

Eu sempre pensei nisto numa forma ampla, pensava que a vontade humana de se encaixar, como uma etiqueta dentro de uma roupa, seria na verdade o desejo humano de pertencer ao grupo dominante, seja ele o do meio artístico ou político e ou o que mais tivesse próximo da realidade cotidiana.
Mas foi pensando no verbo rotular que veio a idéia de coisa negativa, ninguém quer ser rotulado para ter a aparência da pessoa ao lado ou o pensamento, na verdade, a ambição de ser diferente é muito maior e parece que hoje em dia a juventude está tão vazia e sem identidade qu
e a única coisa que resta para solidificar um pouco de amor próprio é querer ser totalmente diferente da maioria.
Vejamos pelo viés histórico: os negros, os judeus, os povos pagãos, os comunistas, os cientistas... Todos perseguidos por um simples e único fato, eram diferentes, eram tão diferentes que traziam pavor e curiosidade para a maioria, ao mesmo tempo. A diferença já foi culpada por atos genocidas desde o tempo em que não havia o conceito de soberania. O que torna tudo complexo? A diferença que foi antagonista durante séculos agora se torna protagonista principal da trama contra o novo antagonista, a semelhança.


Eu queria entender o que torna uma pessoa inferior à outra por ser parecida com os demais, por possuir ideologias populares, por ser a Ana Júlia dos Los Hermanos ou por ser seguidora literal do populismo? O que a torna pior? Se é por falta de convicção que seja o trunfo da cartada contrária, pois se alguém deixa de gostar de algo por ser notoriamente a escolha de uma maioria, provavelmente não entende o valo
r sentido da palavra convicção. Se é por garantia da escolha não ter sido subjetivamente única da pessoa, como iremos saber? Afinal , a escolha é a base da democracia, não é?
Eu já ouvi e li alguma teoria dominante sobre isto, mas nada que tenha me feito pensar o porque devemos criticar o rótulo que cada um escolhe para si, seja por escolha própria ou por escolha da maioria, a vontade de ser igual ou diferente cabe a kátharsis.

Ps: Analisando melhor este pensamento, caímos num silogisma básico, pois se as correntes dominantes agora pregam que não se seja rotulado, você ao ser diferente , está se rotulando.



"Seja um poema, uma tela ou o que for, não procure ser diferente. O segredo único está em ser indiferente."
Mario Quintana

segunda-feira, 8 de março de 2010

Soul survivor.



Queridos amantes da literatura,

Repeli com desprezo durante anos a leitura de livros que mostrassem alguma referência a teologia, não exerçam a crítica sem antes saber que eu não desprezava o autor ou muito menos o valor da obra, simplesmente não saberia qual seria minha reação diante do livro,sendo eu uma pseudo-incrédula.
De alguma forma esse livro caiu em minhas mãos, estava sob a cama da minha mãe quando o peguei, que diferente de mim não abre mão da leitura religiosa, sendo ela boa ou não, de qualquer forma quando li o título pensei que deveria ser mais um desses livros sensacionalistas sem muita credibilidade...
Ao passar as páginas vi algumas fotografias, uma me deixou curiosa, curiosa ao ponto de ler a legenda da foto que dizia:


Natoma Bay, navio da segunda guerra(...)

E fotos posteriores de pilotos da segunda guerra mundial... Pronto! Poderia até haver a divulgação de notícias exageradas pelo texto literário, mas uma coisa me chamava atenção, segunda guerra mundial.
Resolvi então ler o livro, se fosse aquela mesma porcaria de sempre, seria simples, eu fecharia o livro e continuaria com a minha descrença feliz.
O livro de fato era sobre algo místico, mas não era de forma alguma uma pregação evangélica ou uma fábula da bíblia. A narrativa muito bem elaborada de Ken Gross, estava ali, apenas mostrando como uma criança poderia trazer tantas dúvidas ao mundo adulto, ao mundo formado.


Não vou tentar argumentar o porque deste livro ter me trazido alguma crença, até porque já li e vi imagens que seriam mais chocantes que a própria sutilidade de Ken Gross, mas alguma coisa no livro me trouxe uma imagem diferente da própria religião e da própria fé humana.
Após a descoberta e a certeza de que o menino James teria sim, lembrado de imagens,fatos,nomes e histórias
de uma vida passada, não encontramos entre a história da familia Leininger nenhuma forma de conversão religiosa, nenhuma publicidade , simplismente nada.
Na verdade acho que foi esse argumento que me trouxe alguma crença, somente esse.


"A mente que se abre para uma nova idéia, jamais retorna ao seu tamanho original. "
Albert Einstein.