segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012




Buraco em pensamento,vazio da cama...
E silêncio entre o que pensava e o que não contei.
Não há escolha entre o que permanece e o que desaparece.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Psicografia.


Acordo de olhos fechados, vejo uma roupagem diferente, não tenho mais cor e nem mais som.
Mas ainda pareço ser o mesmo. Levanto a cabeça e ando, minhas pernas ainda parecem as mesmas.Olho para a palma da minha mão e ela ainda é a mesma. Passo a mão em meus cabelos e eles não mudaram.Ainda penso e ainda questiono onde estou ou o que estou sentindo. Eu ainda sou o mesmo.
Mas alguma coisa mudou e eu não sei dizer o que é. Acho que criei asas imaginárias, peso cerca de 20 quilos no momento e existe uma luz, ah, uma luz, tão forte que quase me cega.
Se eu me esforçar, consigo ouvir algumas vozes, mas não entendo o que querem me dizer
ou quem são suas donas.

Minha memória não é a mesma, não lembro a última vez que precisei respirar. Acho que morri, mas ainda não tenho certeza.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Soldado.


Ando para frente como quem não tem passado para trás,
Ando em frente almejando ainda o canto dos sabiás,
Levanto a cabeça e sigo como fiel, rezando para deus me perdoar.

A luz do dia me incomoda muito, quando vejo todos os estragos nítidos, todos bem claros,
Não é aquela ferida ainda aberta ou o cheiro de carne podre que exalo,
O que vejo é pior, um buraco muito maior,
E não falo do buraco onde meus amigos estão enterrados.
Falo do vazio,
Solitário é o guerreiro que abandona sua casa.

De noite tenho frio, tenho medo, tenho tudo.
Tento apagar todas as imagens da minha cabeça,
Mas é impossível, porque mesmo sem elas, eu ainda ouço som.
Canto, canto como forma de prece, canto para esquecer todos os outros terríveis sons que ouço, Aos poucos minha música me acalma.
Letras e melodias são agora minha família.

Um dia sei que vamos nos encontrar, então marcho,
Marcho por você, meu amor.
Levanto a cabeça na direção do sol e lá estou eu,
Vestido para mais um dia de branco, de preto e de moribundo.

sábado, 7 de janeiro de 2012

novo ano.


Cinzas escuras, como pulmão fumante em fim de vida, voando no céu azul. Muito barulho com alguns minutos de silêncio, minutos internos. Movimento retardado e retilíneo e uma enorme explosão. Parecia tempestade, parecia chuva caindo, parecia fim.

Alguma montanha distante, com nuvens claras pairando pelos coqueiros, água quente e muito calor. Uma aldeia distante, com pescadores mudos e casas sem pintura. Sem muito movimento, sem muita emoção. Parece agora recompensa, parece agora liberdade, parece agora começo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Olha, a noiva!




A noiva vai fugir com samba,
Olha lá, eu posso ver ela no altar.
Com as mãos cruzadas, fingindo rezar,
Mas ela vai fugir, você verá.
Olha lá, ela fingindo que vai beijar,
Mas é tudo mentira, espere um pouco que fugirá.
Olha ela saindo da igreja, deixando o altar,
Mas ainda vai embora e nem vai ligar.
Ih, olha o noivo sozinho, triste a chorar,
Sua noiva foi embora e ele chora para ela voltar.
Eu bem que avisei, que até o fim da cerimônia não ia durar,
Moça criada em roda de samba, só casa com partideiro e se for para sambar.

terça-feira, 21 de junho de 2011

altura.


Se para o homem faltava asas, agora é como se completo estivesse. O ápice da evolução da espécie:com razão, corpo fortalecido e asas.
O céu, o glorioso céu, onde ilustram o nosso paraíso, entre nuvens de algodão doce e o antigo templo de Zeus, agora rota das asas do homem.

Lembro a primeira vez que subi num avião, a caminho de Espírito Santo, lembro que tinha 11 anos e lembro também que parecia imortal. De cima via pontos que poderiam ser cabeças, árvores ou o tanto faz , se perdiam entre o verde, o azul, o amarelo e o arco íris de coisas não identificadas. Queria abraçar todas as miniaturas, eu ali tão pequena, parecia gigante entre todas as paisagens que iam perdendo nitidez a cada cenário novo. Eu poderia ali ser mais que o presidente da república, mais que todos os reis da monarquia antiga e mais que qualquer título de realeza, eu estava no céu, onde somente os anjos poderiam me alcançar.

Enquanto me aproximava da terra, lembro de imaginar o avião se perdendo e sem achar o caminho de volta, eu ficara ali, voando entre meus sonhos e o suco de laranja.
Quando pisei em terra firme, diminui de novo, parecia a mesma criança que havia entrado pelas portas daquele avião, mas não, era outra, havia deixado parte de mim ao lado do piloto na cabine e a outra parte perdida entre a claridade e a neblina.

"Uma vez tendo experimentado voar, caminharás para sempre sobre a Terra de olhos postos no Céu, pois é para lá que tencionas voltar."
Leonardo da Vinci

domingo, 3 de abril de 2011

Como Van Gogh...


De frente para o espelho. Gordo, careca e frustrado.
Seria um famoso pintor?

Durante anos estudou artes numa faculdade reconhecida, aprendeu diferentes idiomas e conheceu toda influência, que de fato era necessária.

Hoje vende carros usados, numa concessionária sem nome.Acorda todo o dia às 5, mal consegue abrir os olhos e já tem roupa para passar e já tem criança para cuidar...

De frente para o espelho, gordo, careca e frustrado, sua mulher deitada na cama, já com sinais de idade, aquela menina de cabelos longos e de riso largo, agora uma mulher amarga e infeliz, nota parte da barriga que pula. Sussurra:
- Poderia correr, ao menos...

Um silêncio no quarto. Um silêncio. Sem palavras.
Naquele minuto em que a gravata sufoca o resto de dignidade, pensa no que seria o fruto da sua vida vazia. Filhos barulhentos? Mulher insatisfeita? Pneus furados? E o silêncio continua.


Um quadro ficou jogado, entre poeira de quartinho escuro e baratas elétricas. Um quadro que um dia era um sonho, agora o único vestígio de humanidade dentro de uma família.

Chegou no trabalho, pegou um papel, fez um rabisco, pegou uma arma e pintou de sangue a última tela de sua vida. Morreu.